Plantio de Igrejas e Contextualização da Mensagem

5 minutos | Postado 1 ano atrás

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Entre o povo Gonja, de Gana, há um provérbio que diz: os cachorros de ontem não conseguem caçar os coelhos de hoje. Culturalmente revela que os problemas em uma sociedade tribal dinâmica não podem ser resolvidos com velhas soluções. Dentro de uma perspectiva mais sociológica isto ajuda-nos a perceber que vivemos em um mundo em rápida mutação e transição de valores, conceitos e costumes.

David Bosch afirma que o valor do evangelho, em razão de proclamá-lo, está totalmente associado à compreensão cultural do povo receptor. O contrário seria apenas um emaranhado de palavras que não produziriam qualquer sentido sócio-cultural. George Hunsburger observa também que não há como pregarmos um evangelho a-cultural pois o alvo de Cristo ao se revelar na Palavra foi atingir pessoas, vestidas com sua identidade cultural e humana. A antropologia se torna, assim, um instrumento que nos ajuda a compreender o povo, sua forma de interpretar o universo que os cerca (cosmovisão), e as perguntas socialmente relevantes.

O alvo da compreensão cultural e contextualização da Palavra é comunicar a Cristo de forma que todo homem o compreenda. Nossa preocupação até o momento tem sido evitar que Jesus Cristo seja apresentado apenas como uma resposta para as perguntas que os missionários fazem – uma solução apenas para o mundo externo.

Tippett enfatiza que quando um povo tribal em uma certa comunidade passa a ver Jesus como um Senhor pessoal, e não um Cristo estrangeiro; quando eles agem de acordo com valores cristãos aplicados à própria cultura vivendo um evangelho que faz sentido à sua cosmovisão; quando eles adoram ao Senhor de acordo com critérios que eles entendem… então teremos ali uma igreja entre eles.

As igrejas plantadas necessitam ser equipadas a fim de pensar a teologia de forma relevante, compreensível e aplicável em seu contexto.

Apesar do evangelho ser supra cultural, para todos os povos em todos os tempos, cada cultura, por si, possui sua própria fórmula de elaboração de perguntas a serem respondidas pela Palavra. Podemos exemplificar pensando na figura de um homem ocidental urbano com pneumonia. No ocidente tal enfermidade é tratada de acordo com o conhecimento acumulado sobre a enfermidade e a história prescrita de cura. A pergunta, automática, portanto, que surge na mente deste homem que sofre de pneumonia é como tratá-la. No contexto africano, a principal pergunta a ser debatida não é como mas sim porquê. A causa da enfermidade é a questão mais relevante e nenhuma ação será tomada até que haja uma iniciativa na direção de se produzir esta resposta. Trata-se uma mesma enfermidade objetiva, gerada pelos mesmos mecanismos, mas com abordagens culturais distintas. A compreensão das perguntas que inquietam os corações é fundamental para a proclamação do Evangelho de forma decodificada e transformadora.

Creio que, na tentativa de avaliar a compreensão (e transformação) do evangelho em um contexto transcultural, ou mesmo culturalmente distinto, proponho três principais questões que deveríamos tentar responder:

1. Eles percebem o evangelho como sendo uma mensagem relevante em seu próprio universo?
2. Eles entendem os princípios cristãos em relação à cosmovisão local?
3. Eles aplicam os valores do evangelho como respostas para os seus conflitos diários de vida?

Contextualizar o evangelho é traduzi-lo de tal forma que o senhorio de Cristo não será apenas um princípio abstrato ou mera doutrina importada, mas sim um fator determinante de vida em toda sua dimensão e critério básico em relação aos valores culturais que formam a substância com a qual experimentamos o existir humano.

Para que isto aconteça é necessário observar alguns critérios para a comunicação do evangelho:

Toda comunicação do evangelho dever ser baseada nos princípios bíblicos não sendo negociada pelos pressupostos culturais das culturas doadoras e receptoras do mesmo. Entendo que a Palavra de Deus é tanto transculturalmente aplicável quanto supraculturalmente evidente. É portanto suficiente para todo homem em todas as culturas e gerações.

A comunicação do evangelho deve ter como objetivo final ver a Igreja de Jesus plantada de forma autóctone, com capacidade própria para expansão e amadurecimento. O treinamento de uma comunidade autóctone deve, portanto, estar na mente do movimento missionário antes mesmo da sua chegada.

A comunicação do evangelho deve ser uma atividade realizada a partir da observação e avaliação da exposição da mensagem que está sendo comunicada. O objetivo desta constante vigilância é propor um evangelho que possa ser traduzido culturalmente fazendo sentido também para a rotina da vida. É necessário fazer o povo perceber que Deus fala a sua língua, em sua cultura, em sua casa.

Autor: Ronaldo Lidório

Alex Palmeira

Salvo pela graça, servo de Jesus, em missão como embaixador do reino de Deus – atua como diretor do movimento PN5.

União Sul Brasileira da IASD