Plantando igrejas

20 minutos | Postado 3 anos atrás

Iniciaremos partindo de um pressuposto coletivo: todos cremos que, em obediência ao Senhor Jesus, devemos espalhar o Evangelho de Cristo entre todos os povos da terra até que o Senhor venha.

Se cremos assim gostaria de lhes propor que o Plantio de Igrejas é a forma mais eficiente, auto-sustentável e duradoura de comunicar o evangelho dentro de um perímetro local, seja um bairro em contexto urbano uma etnia culturalmente definida pois:

  1. Gera demanda pela comunicação de um evangelho culturalmente compreensível;
  2. Estabelece localmente o reino;
  3. Duplica o efeito missionário pois igrejas plantam igrejas.

Atos 1: 1-8

Observando o texto

Este texto confronta-nos com o princípio da prioridade. Na obra de expansão do Reino entre até aos confins da terra lidamos com uma tarefa multifacial mas é necesário sermos relembrados da prioridade no ensino missiológico de Cristo.

‘Chronos’ é o termo utilizado para ‘tempo’ no versículo 6 para a pergunta dos discípulos a Jesus: “… lhe perguntavam: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel ?” A pergunta era absolutamente escatológica pois ‘Chronos’ refere-se ao tempo humano, linear. Era uma pergunta sobre a agenda dos últimos dias. Estes discípulos indagavam qual seria o dia, mês e ano da restauração do Reino a Israel.

A forma como esta pergunta foi elaborada mostra a distorção doutrinária daquilo que foi o centro dos ensinos de Jesus no último ano de seu ministério: o Reino de Deus. Quando eles perguntam: :”será este” (‘touto’ – indica que eles esperavam uma restauração imediata com objetivo definido, um rompante de Deus intervindo no mundo da forma como existia na época); “que restauras” (‘apokathistaneis’ – aponta para uma reconstrução nacional política) e o complemento ‘a Israel’ dá um tom político/territorial, a independência de Israel.

Voltando à pergunta inicial: “será este o tempo” do versículo 6 entendemos que o texto poderia optar entre duas possibilidades mais comuns para compilar a resposta de Jesus no versículo seguinte quando o Mestre enfatiza que “não vos compete conhecer tempos ou épocas”. Para a expressão ‘tempos ou épocas’ o texto poderia utilizar a mesma expressão encontrada no versículo 6: “Chronos”. Desta forma Ele estaria dizendo que não era da competência dos discípulos conhecer o ‘tempo humano’ (dia, mês e ano) em que o Reino seria restaurado. Assim Jesus condicionaria o assunto escatológico a um plano humanamente inteligível.

Outra opção textual seria a utilização do termo ‘Kairos’ para ‘tempos ou épocas’ na resposta de Cristo e assim enfatizaria que ‘não vos compete conhecer o tempo de Deus’ “os fatos e acontecimentos que assinalavam um momento certo ou errado de algo acontecer” nas palavras de Tertúlio Cônico. Desta forma Jesus afirmaria que não era da competência dos discípulos conhecer o ‘tempo de Deus’, o momento apropriado na economia do Pai para que o Reino chegasse.

Para nossa surpresa textual a expressão ‘tempos ou épocas’ no versículo 7 utiliza ambos os termos e conceitos: ‘chronous kai kairous’ (o tempo humano e o tempo divino) e com isto o texto afirmava que a prioridade de Jesus não era escatológica (os últimos dias, os eventos finais, a consumação dos séculos) mas sim missiológica quando o versículo 8 intervém com a expressão ‘mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas…”. Com estas palavras Jesus explicava o Reino: Ele criara uma Igreja funcional e não apenas contemplativa, nascida para espalhar a Sua Palavra a todos os povos, em todas as gerações, até a Sua volta. Missões.

Paulo entende este princípio e em Romanos 15:20 ele explica que “aqueles que nada ouviram” são a prioridade de Deus em relação à evangelização mundial. E isto pode ser perto ou pode ser longe. Tanto em uma tribo isolada quanto do outro lado da rua. O valor de uma alma, para Deus, é o mesmo: mais que o mundo inteiro.

Tendo em mente estes pressupostos estudaremos um pouco a respeito do desafio mundial de plantio de igrejas. Quais são os elementos necessários para um movimento de plantio de igrejas ?

1. Centralidade do Evangelho: A necessidade de haver abundante evangelização

Em um processo bíblico de plantio de igrejas é necessário sermos lembrados que a centralidade da Palavra define a fidelidade da Missão. Ou seja, não podemos optar por mecanismos que simplesmente culminem em resultados atrativos mas sim por mecanismos fundamentados na Palavra e na visão de Deus.

Devemos aqui reconhecer que nossos ministérios não devem ser definidos em termos de resultados mas sim de fidelidade ao Senhor. Este é um desafio difícil em países como o Brasil onde há grande atração pelos resultados visíveis e contábeis. A resposta bíblica, creio eu, é não negociarmos os valores da Palavra. Na África já evangelizei aldeias com os mesmos métodos e o mesmo fervor. Em algumas ninguém se converteu. Em outras, centenas de conversões. Pude aprender duas coisas em particular:

  1. Os resultados decorrentes da evangelização procedem exclusivamente do derramar da Graça de Deus;
  2. O Senhor espera de nós caráter e não apenas reputação; fidelidade mesmo na ausência de frutos.

Entretanto em um movimento de plantio de igrejas é preciso também crer que a Palavra, o Evangelho de Deus, lançada na terra irá germinar.

Com este pressuposto a quantidade e constância da evangelização torna-se a ação fundamental em um processo de plantio de igrejas. Em um campo missionário, seja culturalmente distinto ou geograficamente próximo, a abundância na evangelização deve ser uma prática constante. Alguns campos não frutificam porque investem mais tempo na estruturação missionária e menos na atuação missionária e este é um perigo que permeia desde as nossas igrejas locais até nossos campos mais distantes.

Estive estudando, durante um trabalho de consultoria missionária, alguns campos no oeste africano (Gana, Costa do Marfim, Nigéria) e na América do Sul (Norte do Brasil, Peru e Colômbia) onde diferentes processos de plantio de igrejas estavam em andamento. Dividi os campos missionários em duas categorias:

  1. Nível de estruturação: (observando a presença de postos missionários bem estabelecidos, boa mobilidade com transporte próprio, sistema de comunicação funcional entre as equipes missionárias e supervisão cultural e linguística);
  2. Nível de evangelização: (observando a presença de iniciativas evangelísticas pessoais, múltiplas tentativas de comunicação comunal do evangelho, uso da literatura, filmes etc)

As conclusões já eram esperadas: igrejas nasciam em maior quantidade e maturidade nos campos onde havia abundante evangelização mesmo em detrimento de baixa estrutura missionária. De forma geral, de cada 10 iniciativas de evangelização, não mais que 2 terminavam com bom êxito, portanto apenas os campos com abundate evangelização foram visivelmente frutíferos.

Se desejamos plantar igrejas, a macro-estrutura para subsistência missionária como transporte, mobilidade, comunicação, moradia e capacitação será de grande cooperação para o processo final. Entretanto o fator determinante será a presença de abundante evangelização.

David Brainerd na evangelização dos indígenas na América do norte registra, para sua surpresa, o maior resultado evangelístico em sua reunião com menor estrutura missionária quando, na ausência do seu intérprete que adoecera, ficou em seu lugar um índio bêbado com pouca fluência no inglês que mal conseguia ficar sentado sem cair. Em seu diário, após impactante experiência com os efeitos da evangelização mesmo na ausência de uma estrutura ideal, escreveu: “a mensagem vai além do mensageiro”.

2. O desafio do Evangelista: o caráter vai além da habilidade.

Neste processo de plantio de igrejas é preciso haver um equilíbrio entre a capacitação e o caráter. Conheço alguns PhDs em teologia que atuam como missionários ao redor do mundo os quais, tenho a impressão, não passaram ainda por uma real e pessoal experiência com Deus.

Por outro lado conheço missionários cheios de Deus e apaixonados por Jesus os quais não tiveram uma oportunidade de preparo que pudesse maximizar seus dons e habilidades, e pagam por vezes um alto preço devido a isto.

Precisamos entender que a caráter do mensageiro não define a comunicação da mensagem mas facilita a sua compreensão.

Após três anos entre os Konkombas, quando a Igreja crescia rapidamente e o Evangelho alcançava lugares remotos, perguntei aos líderes locais certa vez sobre a razão principal pela qual éramos aceitos entre eles:

  1. Habilidade de falar no dialeto local e ser entendido com facilidade;
  2. Compreensão da cultura, costumes e forma de vida Konkomba;
  3. Envolvimento pessoal com a sociedade tribal.

Eles então responderam: “O que leva o nosso povo a parar para ouvi-lo é porque você sempre sorri quando nos vê, parando para nos cumprimentar e alegre em nos escutar”. Naquele dia eu escrevi em meu diário: “caráter é mais importante que habilidade”.

William Davis, tentando fazer-nos diferenciar entre a ilusão do palco e a realidade da vida, compara caráter e reputação quando diz:

 

“As circunstâncias nas quais você vive determinam sua reputação;

A verdade na qual você crê determina o seu caráter;

Reputação é o que pensam a seu respeito;

Caráter é aquilo que você é;

Reputação é a fotografia;

Caráter é a face;

Reputação fará de você rico ou pobre;

Caráter fará de você feliz ou infeliz;

Reputação é o que os homens dizem a seu respeito no dia do seu funeral;

Caráter é o que os anjos falam de você perante o trono de Deus”.

 

3. A comunicação do Evangelho: modelos e estratégias

Gostaria de gastar algum tempo falando sobre estratégias para plantio de igrejas. Obviamente há fatores distintos em épocas e contextos diferentes mas nossa proposta hoje será estudar valores bíblicos que marquem grandes e visíveis movimentos de plantio de igrejas no mundo atual. Analisando os escritos de David Garrison, as pesquisas mais recentes da World Mission International e o banco de dados da WEC International (AMEM) além de contribuições pessoais de missiólogos como Patrick Johnstone, David Barrett, Bruce Carlton, J. Johnson e David Watson há possivelmente no mundo hoje mais de 200 grandes movimentos de plantio de igrejas em pleno andamento. Alguns deles são:

  1. Movimento de plantio de igrejas entre os Khmer no Cambodja onde 3.3 milhões de pessoas foram mortas no regime autoritário de Pol Pot’s entre 1975-1979. Vários cristãos também foram mortos e em 1985 não havia mais do que 450 evangélicos entre o povo Khmer. A partir de 1999 o número de evangélicos cresceu de 600 para mais de 60.000 divididos em 700 igrejas. Hoje registram-se mais de 100.000 evangélicos e mais de 800 templos entre eles.
  2. Movimento de plantio de igrejas na cidade de Kanah na China onde um rápido crescimento evangélico mudou o cenário de 3 igrejas reconhecidas pelo Estado para 57 novas igrejas dentro de dois anos. Em novembro de 1997 contabilizou-se mais de 450 igrejas em três províncias e mais de 18.000 pessoas entregaram-se ao Senhor Jesus. Hoje Kanah é uma das mais influentes regiões cristãs na China com mais de 500 igrejas reconhecidas.
  3. Movimento de plantio de igrejas entr os Kekchi na Guatemala onde este grupo com cerca de 400.000 pessoas vivendo na região de Alta Verapaz foi impactada pelo evangelho. Entre 1993 e 1997 mais de 20.000 pessoas aceitaram ao Senhor Jesus e 245 congregações nasceram. Entre 1997 e 2000 outras 10.000 pessoas aceitaram ao Senhor Jesus e há entre eles hoje mais de 400 igrejas registradas.
  4. Movimento de plantio de igrejas entre os Kui na Índia, um grupo com 1.7 milhões de habitantes na região de Orissa, estado na costa leste da Índia. Os primeiros convertidos vieram para Cristo em 1914 com missionários ingleses. Nos anos 20 algumas poucas igrejas nasceram. A partir de 1988 mais de 100 igrejas surgiram, especialmente ligadas a missionários da Southern Baptist Mission. Entre 1988 e 1991 as igrejas aumentaram para mais de 200. Entretanto entre 1993 e 1997 houve um crescimento ainda maior e mais de 900 igrejas foram registradas entre os Kui com cerca de 80.000 convertidos.
  5. Movimento de plantio de igrejas entre os Giriama no Kenya onde, em 1970, 90% era animista fetichista. O movimento missionário teve inicio em 1974 e em 1981 um rápido e impactante crescimento de igreja tomou conta dos Giriama. Em três anos foram registradas 180 igrejas. A cada ano, desde 1993, nascem em média 28 novas igrejas entre os Giriama e províncias ao redor.
  6. Movimento de plantio de igrejas entre os Mizo na Índia com uma população de 686.000 pessoas. O evangelho chegou entre eles em 1894 através de missionários britânicos. Em 1900 contavam com 120 cristãos. Como resultado do avivamento no país de Gales em 1904, um número expressivo de missionários foi enviado para esta etnia. Somente a partir dos anos 50, entretanto, os resultados passaram a ser mais visíveis e conversões em massa eram notificadas. Hoje 85% de todos os Mizo na Índia consideram-se cristãos.
  7. Movimento de plantio de igrejas na Etiópia, África, país com mais de 60 milhões de habitantes. Até 1994 não havia mais do que 1% de evangélicos no país. Entre 1994 e 1999 Great Harvest of Souls Mission registrou a conversão de 10 milhões de pessoas em todo o país. Hoje, 16% da população considera-se cristã. Great Harvest mencionou o estudo de caso de uma congregação a qual, entre 1995 e 1997 cresceu de 2.500 para 25.000 pessoas.

Alguns valores em comum entre estes 7 movimentos de plantio de igrejas.

a) A visão define a rota

Analisando mais de 90% dos processos de plantio de igrejas mais amplos e frutíferos pode-se notar que havia um desejo intencional de desenvolver um forte e impactante movimento de evangelização seja entre um povo, cidade ou país.

O valor aqui, portanto, é a visão pois nenhum campo missionário, ou ministério, é maior que a sua visão. E como nem toda visão da Igreja é necessariamente visão de Deus precisamos buscar intensamente a visão do Senhor para nossos ministério em cada época das nossas vidas.

b) A missiologia estabelece os valores

Os valores que devem fundamentar um processo amplo de plantio de igrejas são diversos mas mencionaremos os principais, presentes nos movimentos citados.

  1. Oração. Presente em todos os movimentos de plantio de igrejas antecedendo cada processo. Patrick Johnstone, um dos maiores missiólogs dos nossos dias afirma que “Quando o homem trabalha, o homem trabalha. Quando o homem ora, Deus trabalha”.
  2. Abundante evangelização. Nenhuma tecnologia missionária substitui o poder da comunicação pessoal do evangelho. O evangelho foi abundantemente comunicado em cada um dos movimentos de plantio de igrejas estudados, de forma criativa, fiel e constante.
  3. Fidelidade à Palavra. Há muitas estratégias de movimento de massa que são funcionais entretanto não são bíblicas. David Hesselgrave alerta-nos dizendo que “nem todo novo pensamento é dirigido pelo Espírito. Nem tudo o que é novo é necessariamente bom. A Bíblia é antiga, o Evangelho é antigo e a Grande Comissão é antiga…”. Na verdade ele defende que neste imenso mar de necessidades no mundo não alcançado precisamos entender que “o evangelho dá a direção… pois a Palavra precede a nossa visão”. Nos movimentos de plantio de igrejas estudados a Palavra não foi negociada. O alvo primário era a fidelidade e não apenas os frutos.
  4. Liderança local. Todo amplo movimento de plantio de igrejas que tornou-se regionalmente duradouro contou com um forte envolvimento de pessoas locais desde a primeira fase. O investimento em pessoas locais, passando-lhes a visão, paixão e estratégias garantirá um processo de plantio de igrejas que vá além do missionário ou evangelista.
  5. Liderança leiga. Os mais rápidos processos de plantio de igrejas no mundo contam com forte utilização da força leiga tanto na expansão quanto no amadurecimento das igrejas plantadas. Os crentes, apaixonados por Jesus e com maturidade cristã, eram os instrumentos de expansão do evangelho.
  6. Plantio de igrejas plantadoras de igrejas. A reprodução de igrejas plantadas em uma segunda fase idealisticamente deve ser feita através dos frutos e não da raiz do movimento. Nesta etapa o(s) missionário(s) devem estar já assumindo uma posição de supervisão da visão e encorajamento, e não de linha de frente. Igrejas devem plantar igrejas. O modelo missionário que sugiro é: Inicie, discipule, reproduza, assista, encoraja e parta.

c) Alguns passos e observações gerais

  1. Mapeamento etno-cultural e geograficamente definido. Devemos saber qual a extensão do desafio.
  2. Análise cultural e fenomenológica. É preciso entender as vias culturais para a compreensão do evangelho.
  3. Comunicação inteligível (individual ou comunitária) do evangelho
  4. Adoração e vida diária da igreja na própria língua materna.
  5. Rápida incorporação dos novos convertidos à vida da igreja.
  6. Consciência de urgência evangelística já transmitida no processo de discipulado.
  7. Identificação de líderes locais o mais cedo possível.
  8. Treinamento para líderes com alvos definidos.
  9. Descentralização da autoridade eclesiástica. Cada igreja local possui responsabilidade local.
  10. Ênfase no caráter cristão.
  11. Supervisão contínua quanto ao amadurecimento espiritual.

Conclusão

Uma alma vale mais que o mundo inteiro e isto pode ser perto ou longe. Missiólogos nos mostrarão o caminho mas é necessário sabermos que apenas homens apaixonados por Jesus levarão o evangelho até aos confins da terra. Neste caminhar plantio de igrejas parece-me ser a estratégia mais consistente, culturalmente viável e duradoura de evangelização.

Autor: Ronaldo Lidório

Alex Palmeira

Salvo pela graça, servo de Jesus, em missão como embaixador do reino de Deus - atua como diretor do movimento PN5.
União Sul Brasileira da IASD