O discipulado e a visão da igreja

10 minutos | Postado 1 ano atrás

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Quando Jesus veio ao mundo Ele ampliou a dimensão de muitas coisas que eram a base da religião de sua época. O templo, o sacerdócio e o sacrifício são exemplos disso. Se pararmos para observar, praticamente todo o sistema estava fundamentado nestas três estruturas. Ainda hoje muitos mantêm de maneira contextualizada tais alicerces. Mas Jesus expandiu a visão da comunidade para além de um lugar específico de adoração e o trouxe para o seio da sociedade: a casa, a família. Ele ampliou o sacerdócio restrito a uma tribo, a um clero religioso para o sacerdócio de todos os crentes. E, por fim, Ele substituiu o sacrifício de animais pelo sacrifício perfeito de Si mesmo na cruz. A partir deste novo paradigma, a casa, as pessoas e o sacrifício de Jesus mostraram uma nova forma de aplicação da fé. O evangelho transcendeu as paredes da igreja, para chegar à intimidade das pessoas; o pastoreio se tornou mais próximo, eficaz; e o sacrifício mais real.

 Neste processo, o discipulado em comunidade tem um importante peso de influência e o termo chave para fortalecer esta mudança é a palavra relacionamento. Sob esta base Jesus incorpora um novo estilo de liderança, capaz de subverter qualquer força. Este modo de vida caracteriza a maneira como nos relacionamos com Deus, com os outros e com o mundo. Jesus sabia disso, por isso nos evangelhos Ele sai da periferia em direção às cidades. Sua migração tem como objetivo a comunidade em transformação por meio de relacionamentos autênticos de discipulado. Ele derruba as barreiras da tradição exclusivista mantendo um comportamento contracultural de valorização das pessoas. Ele alcança as massas e as conduz ao reino sob a estratégia simples de compartilhar as experiências do dia a dia. Isso fez a diferença no tempo de Jesus e faz para nós hoje. O mundo moderno tem aparentemente tudo, menos relacionamentos autênticos. As pessoas estão clamando por companheirismo, serviço voluntário, amor gratuito, aproximação natural e fé pura. O que cativa é o simples – compartilhar experiências comuns juntos.

Pesquisas apontam que o número de pessoas que apostatam da fé está cada vez mais alto, chegando a índices alarmantes a cada ano. Se metade das pessoas que ganhamos para Cristo abandonam a igreja, há algo errado com a maneira como temos aplicado o termo discipulado em comunidade. Essas mesmas pesquisas mostram que o fator de maior peso para a apostasia é o relacionamento. Infelizmente, corremos o risco de ver a grande comissão sendo transformada numa grande omissão, com milhões de pseudocristãos, limitados a sua religião de fim de semana, como se a frequência a igreja, por duas ou três horas semanais, esgotasse o compromisso de discipulado. Não estamos imunes a tal patologia. Precisamos reimaginar a igreja sob a perspectiva de Jesus. Não podemos correr o risco de dogmatizar a forma, mas também não devemos pragmatizar os princípios, dos quais o relacionamento é o principal. Deus nos convida a um relacionamento com Ele, com os outros e com o mundo. Isso é sistematizado pela igreja através do processo de discipulado que a sustenta. COMUNHÃO com Deus; RELACIONAMENTO com os outros; MISSÃO com o mundo.

 Seguindo esta dinâmica, este guia se propõe a ser uma ferramenta útil no plano de discipulado de sua igreja. O ponto de partida do Espírito Santo para implementar esse processo começa com você. Portanto, a maneira como você irá se comportar nesta caminhada vai determinar o alcance de Deus nas pessoas que Ele vai lhe dar para serem pastoreadas.

 Temos uma visão simples para esse programa de discipulado de líderes: Comunhão com Deus, relacionamento com os outros, missão aos perdidos.  Nossa missão é ajudar o perdido a ser salvo, o membro a se tornar discípulo e o líder formal em um ministro.

A missão é a razão principal da existência da comunidade de fé. Tudo o que se faz na comunidade é feito em função da Missão. Neste sentido, toda a ação da Igreja, seus planejamentos e objetivos devem girar em torno da missão.

O Deus que aparece de Gênesis a Apocalipse em nossas Bíblias, é um Ser-em-missão que vem até nós, nos transforma pelo seu poder restaurador e por fim nos envia. Não dá pra fugir desta dinâmica. Envolver-se com o Deus da Bíblia significa estar sujeito e disposto ao envio missionário, veja com Abraão e Moisés:

“Sai-te da tua terra… para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção”. (Gênesis 12:1)

“Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito”. (Êxodo 3:10)

Biblicamente e teologicamente, não dá pra envolver-se com aquele que é o Grande Missionário e não ser influenciado ou impactado pelo amor à missão. Entender o significado bíblico, teológico e prático da missão da igreja é de vital importância para entendermos o que de fato significa Evangelizar.

Vamos nos concentrar agora em uma única pergunta: qual é a missão da igreja? Ou seja, para que ela existe?

Para entendermos a missão da igreja, precisamos ter em mente qual foi a missão de Cristo ao vir a Terra. Seja o que for que temos que fazer, isso tem a ver com o que Cristo fez, pois Ele transfere para a Sua igreja a obra que recebeu do Seu Pai. Ele diz:  “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio”. (João 20:21)

Em Lucas 19:10, o próprio Cristo define a sua missão: “Pois o filho do homem veio buscar e salvar o perdido”. Assim, a igreja existe para realizar a obra que Cristo realizou: “buscar e salvar o perdido”.

Mas como Cristo fez isso? Qual era Seu método? O método de Jesus era chamar e preparar discípulos. Essa é a principal ênfase de Mateus 28:19. “Fazer discípulos é o principal sintagma verbal do verso. Os outros verbos – ir, batizar, ensinar – são subordinados” (CRESS, 2010, p.22).

Rafael Monteiro em sua tese doutoral (2004, p. 17) fez uma pesquisa exaustiva sobre as questões linguísticas de Mateus 28:18-20, vou apresentar brevemente algumas conclusões desse estudo.  O verbo traduzido por “ide”, no original grego é poreutentes e está na mesma forma que os verbos “batizando” e “ensinando”. O único verbo que está no imperativo é “fazei discípulos”. Na verdade todos os outros verbos desta ordem nas versões da bíblia em português deveriam estar no gerúndio. Uma tradução mais acurada do texto seria: “indo, ensinando, batizando, fazei discípulos”!  A maneira como os verbos “ide” e “fazei discípulos” foram colocados na sentença original indicam uma ação sumária que deve ser logo realizada. Por esta razão, eles são traduzidos em português como dois imperativos. Há aqui um sentido de urgência sustentado pela autoridade de Jesus: “Foi-me dada toda autoridade no céu e na terra.” (Mateus 28:18)

A ideia aqui é que indo pela vida das pessoas, ensinando, batizando, exercendo uma influencia transformadora, construindo vínculos relacionais, o cristão vai cumprindo a ordem de “fazer discípulos”. Isso corrige a concepção errada acerca do batismo como um evento culminante, similar a uma formatura. O batismo deveria ser visto como mais um passo de um processo em andamento.  Portanto, se uma igreja batiza as pessoas sem fazer discípulos, ela é desobediente a Cristo. Se ensina às pessoas os mandamentos de Cristo, mas não faz discípulos e não batiza, ela é desobediente a Cristo. A ordem de nosso Senhor é clara demais para ser mal-entendida. Muitas igrejas tem falhado em cumprir a missão, não porque deixou de proclamar e batizar, mas porque ignorou a necessidade de fazer discípulos.

E o que significa “fazer um discípulo”? É o processo comprometido em que um cristão mais maduro toma uma pessoa que não conhece a Jesus e a conduz pelo ensino transformador ao crescimento e maturidade, ajudando a descobrir seus dons e utilizá-los num ministério de serviço para o avanço e a expansão do reino de Deus. Esse processo conduzirá o novo crente a conseguir formar uma terceira geração espiritual.

Fazer discípulos” não é a missão – é o único método apontado por Cristo para cumprir a missão que é “buscar e salvar o perdido”. Não existe plano B, não existe método alternativo. O único plano de multiplicação, Jesus deixou bem claro. Os discípulos não deveriam se dispersar em muitos outros métodos e abordagens de expansão do Reino, mas deveriam se concentrar naquilo que o Mestre escolheu como sendo o melhor e único plano.

O discípulo passa pelo processo de descoberta de Deus, crescimento em Cristo, comprometimento com Deus e Sua causa, treinamento para melhor servir segundo seus dons, aprofundamento no conhecimento de Deus e exercício de seu ministério pessoal. Enquanto o discípulo aprende por um processo, o discipulador se dedica a esta pessoa como se fosse um filho. Não há obra que seja mais importante do que esta para a igreja. Nada que a igreja faça deve perder de vista o foco de fazer discípulos para cumprir a missão.

Alex Palmeira

Salvo pela graça, servo de Jesus, em missão como embaixador do reino de Deus – atua como diretor do movimento PN5.

União Sul Brasileira da IASD